
Por Caroline Monteiro
Num mundo cada vez mais comprometido com a transição climática, cidades em todo o planeta procuram maneiras de reduzir a sua pegada ambiental. Guimarães, aspirante a Capital Verde Europeia, não é exceção. Contudo, há um componente crucial desta jornada verde que muitas vezes é negligenciado: o transporte público. Neste contexto, a cidade enfrenta uma encruzilhada, onde a precariedade dos serviços de transporte público contrasta diretamente com as suas ambições ecológicas.
Guimarães, ao almejar o título de Capital Verde Europeia, destaca-se como líder na busca por soluções sustentáveis. No entanto, a contradição não passa despercebida quando uma cidade com tal aspiração enfrenta desafios consideráveis em oferecer um transporte público eficiente e acessível.
No âmbito do transporte público existente em Guimarães, por vezes, deixa a desejar. É notável a constatação de que as linhas de autocarros, lamentavelmente, operam com uma frequência tão escassa que os usuários se deparam com a espera de uma hora entre cada passagem (até mais visto a linha 163), resultando em significativos desafios para a mobilidade urbana. Ainda, a ausência de serviços noturnos tornam-se barreiras substanciais para os cidadãos que dependem desses serviços diariamente. A realidade é que, muitas vezes, a falta de condutores agrava ainda mais a situação, resultando em serviços não atendidos.
Além dos transtornos diários, a ineficiência do transporte público afeta diretamente a mobilidade dos cidadãos, prejudicando oportunidades de emprego, acesso à educação e participação social. Essa limitação não é apenas uma questão de conveniência, mas uma barreira económica para algumas comunidades, gerando custos adicionais para os cidadãos.
É imperativo que Guimarães invista de maneira significativa na infraestrutura do transporte público como parte integral de sua transição climática. Exemplos ao redor do mundo mostram que o desenvolvimento sustentável está intrinsecamente ligado a sistemas de transporte público eficientes.
O transporte público não é apenas um meio para superar os desafios urbanos, é uma peça-chave na redução das emissões poluentes. Um sistema eficiente incentiva as pessoas a optarem por alternativas sustentáveis, desempenhando um papel fundamental na transição climática.
Para alcançar melhorias significativas, é crucial envolver a comunidade no processo de desenvolvimento do transporte público. Coleta de feedback, participação em decisões relacionadas à infraestrutura e colaboração entre governo local e cidadãos são componentes vitais desse esforço coletivo.
Ainda, importante também mencionar que, após a melhoria no sistema de transporte público (mesmo que ainda sem abranger a extensão de horários noturnos), sinalizada pela Vitrus para o 2º semestre de 2024, os cidadãos façam a sua parte, considerando intensificar o uso do transporte público (a demanda exige oferta), criando desta forma um ciclo virtuoso no qual se promove a troca do transporte individual, para aquele coletivo, viabilizando um trânsito mais fluido, menos ruído, e, o melhor, menos poluição.
Em última análise, a verdadeira transição climática não pode ocorrer isoladamente nas esferas da energia renovável e práticas ecológicas individuais. Deve abraçar integralmente a mobilidade sustentável, assegurando que todos os cidadãos possam participar dessa jornada verde. Guimarães, em seu caminho para ser eleita Capital Verde Europeia, tem a oportunidade de se destacar não apenas pelos seus parques e projetos de educação ambiental, mas pela eficiência e acessibilidade de seus serviços de transporte público, garantindo que a transição climática seja verdadeiramente para todos.
Em tempo: caminho todos nos dias, cerca de 800 metros até a paragem mais próxima à minha residência (e minha freguesia é considerada central na cidade). Ou seja, faço um percurso de 1,6 km de caminhada (o que se torna muito complicado em dias de chuva) para poder usar a linha que passa apenas de uma em uma hora, para me deslocar ao trabalho. Nos dias em que saio após às 20h, não raro, não tenho como regressar, a não ser pelos serviços de transportes privados, altamente poluentes e com valores exorbitantes. Então, fica a pergunta para a nossa reflexão: Transição climática para quem?
