Há alguns dias, li uma reportagem que referia um alerta das Nações Unidas: até 2050, a produção de alimentos terá de aumentar em 70% para garantir níveis adequados de alimentação a nível global. Alguns números, neste contexto, são particularmente relevantes. Em 2023, cerca de 700 milhões de pessoas sofreram de fome, o que corresponde a aproximadamente 9,4% da população mundial. Já em Portugal, de acordo com um relatório da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), em 2018 foram abatidos 257 milhões de animais terrestres (mamíferos e aves, excluindo espécies aquáticas), um número que equivale a cerca de 25 vezes a população do país.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 76% da produção mundial de cereais – especialmente soja – destina-se à alimentação de gado. Esta realidade levanta questões urgentes sobre a distribuição de alimentos, a fome, a sustentabilidade e, essencialmente, a ética.
Os animais criados para consumo necessitam de grandes quantidades de ração, cereais, água e espaço até o momento do abate. No entanto, a taxa de conversão de cereais em proteína animal é extremamente baixa, expondo a ineficiência do combate à fome mundial, onde 733 milhões de pessoas enfrentam uma grave insegurança alimentar. Para produzir um quilograma de carne bovina, são necessários, em média, 7 kg de cereais (a Organização Mundial de Saúde recomenda o consumo diário de cerca de 400 gramas de fruta ou outros alimentos vegetais) e até 15 mil litros de água, segundo estimativas recentes.
Este desvio de recursos da produção agrícola – do consumo humano para a alimentação animal – provoca um impacto ambiental severo: desflorestação, contaminação e degradação do solo, uso excessivo de água, perda de biodiversidade e emissão de gases com efeito de estufa.
Se considerarmos a previsão da ONU de que será necessário aumentar em 70% a produção alimentar até 2050 para alimentar a população mundial, torna-se evidente que a redução ou eliminação do consumo de produtos de origem animal poderia aliviar esta pressão, trazendo amplos benefícios para o ambiente, a biodiversidade, a humanidade e, naturalmente, para os próprios animais, seres sencientes com direito a uma vida digna.
Se grande parte dos cereais cultivados fosse direcionada diretamente para o consumo humano, seria possível alimentar um número muito superior de pessoas, utilizando menos recursos e reduzindo significativamente o impacto ambiental. Atualmente, 76% dos cereais são destinados à ração animal, mas se esta percentagem fosse redirecionada para consumo humano, poderíamos não só mitigar os efeitos ambientais, como também reduzir drasticamente a fome no mundo.
Ao optar por reduzir ou eliminar o consumo de produtos de origem animal, cada um de nós contribui para um sistema alimentar mais eficiente e sustentável. Esta mudança permite alimentar uma população global crescente sem a necessidade de uma expansão drástica da produção agrícola, que frequentemente conduz à desflorestação em larga escala. Além disso, estabelece uma base mais justa para a distribuição alimentar, tornando possível levar comida às regiões mais carenciadas do planeta e aproximando-nos da erradicação da fome.
Mas por que razão falamos em “alimentação consciente”?
Porque é essencial desmistificar o consumo de proteínas. Sabias que um único aviário industrial pode ter impactos ambientais tão graves, ou até superiores, aos da produção de carne bovina? Os dejetos das aves podem contaminar os lençóis freáticos devido à lixiviação de nitratos e causar desequilíbrios ecológicos nos cursos de água, como a eutrofização. Além disso, o uso excessivo de produtos químicos, como antibióticos e desinfetantes, leva à degradação do solo, ao aumento da sua salinidade e ao acúmulo de matéria orgânica, podendo comprometer a sua regeneração por até 20 anos e exigir intervenções humanas intensivas.
É fundamental refletirmos sobre o impacto das nossas escolhas alimentares. Conseguimos perceber as consequências do que colocamos no prato? A mudança de mentalidade e a consciencialização ambiental começam, literalmente, à mesa.
Autoria: Caroline Monteiro